Os Comitês de Cultura
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HORA DE RECHAÇAR O TERRORISMO CULTURAL
Na esteira da tentativa monstruosa de um golpe de Estado, no dia 8 de janeiro, em Brasília, com estratégias terroristas, de destruição do patrimônio público, agressão à democracia, conspiração, violência contra a integridade física dos cidadãos e cidadãs e das instituições, o FAROFAFÁ reafirma sua disposição em seguir fazendo o jornalismo rigoroso, crítico, engajado e responsável que pode servir como contraponto à barbárie. A hora é crucial: a chegada de uma nova gestão democrática põe a nu os vícios do totalitarismo que ocupou o poder público, revelando gigantescos cabides de empregos na administração federal, distorção de políticas públicas, dilapidação das funções técnicas de gestão, atrofia do patrimônio, ataque aos servidores, assédio moral e violências de todo tipo. Nesse cenário, não cumpre apenas retomar-se a relevância do papel do jornalismo independente, mas também rechaçar o chapabranquismo, o adesismo, a acriticidade, o desapego pelas regras do profissionalismo. É preciso ajudar a recompor um cenário propositivo, mas também de convivência democrática, de aceitação da divergência e das diferenças. A vigilância pelos estamentos da democracia é eterna, mas é preciso contribuir para criar os paradigmas desse monitoramento, desse diálogo de concessões mútuas e princípios irremovíveis.
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Petit comitê, grande ideia
Nas primeiras horas do novo governo, Luiz Inácio Lula da Silva nomeou uma nova ministra da Cultura, Margareth Menezes, e também uma nova Secretária dos Comitês de Cultura, Roberta Martins. É algo nunca colocado em funcionamento nas democracias brasileiras. Qual será exatamente a função de Roberta? Do que se trata essa nova figura da gestão pública os Comitês de Cultura? Nessa edição, começamos a responder a esses questionamentos. E ainda:
Conheça Paraíso, o novo disco do cantor e compositor baiano Lucas Santtana, e o suingue de um artista emergente, Ninguém. O novo Spielberg, The Fabelmans, é um tributo ao cinema, e O Gabinete de Curiosidades, é uma declaraçao de amor ao teatro.
A poesia brasileira dá adeus ao tradutor, ensaísta e poeta paulistano Claudio Willer, pioneiro na tradução dos beatniks no Brasil. Willer morreu em São Paulo essa semana, aos 82 anos.
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Em ritmo de reconstrução e de retomada dos desejos, saudamos a todas e todos!
EQUIPE FAROFAFÁ

O ESPÍRITO DOS COMITÊS DE CULTURA
O sociólogo João Pontes, que participou da elaboração do programa de governo de Lula na Cultura e integrou a equipe técnica do Grupo de Trabalho de Cultura do Gabinete de Transição, escreve artigo exclusivo para o FAROFAFÁ sobre uma das propostas de campanha do novo presidente da República, os Comitês de Cultura, que ganharam até uma nova secretária no novíssimo Ministério da Cultura. Segundo Pontes, os Comitês de Cultura "não surgem para substituir ou compartilhar competências com os Conselhos de Política Cultural (municipais, estaduais e nacional), nem tampouco "para o planejamento, monitoramento e avaliação das políticas culturais, de uma forma mais abstrata, institucional. Mas, sim, para agir junto ao Estado na produção de estratégias de intervenção simbólica. A sociedade, junto ao Estado, promovendo uma cultura democrática e cidadã".
"Os Comitês de Cultura podem ser formados por artistas, intelectuais, trabalhadores e trabalhadoras da cultura, redes e movimentos sociais, organizações sociais. Contar com diversidade artística, étnica, racial, de gênero, geracional, sexual, de credos, territorial, política. Ser compostos por representações do poder público, universidades, equipamentos culturais, mas com maioria da sociedade civil, tendo estratégias de composição democráticas. Podem partir da análise da realidade social e definir estratégias para atuação simbólica. Debater temas, desafios para a democracia e para o futuro da humanidade. Abordar temas como diversidade, emergência climática, contribuição de povos originários, violência, dentre outros".
Conheça os pressupostos estruturais do novo conceito nesta edição.
RONDA EM 6 NOTAS

1) O que só Spielberg vê
The Fabelmans é um Steven Spielberg diferente de tudo o que já vimos de sua obra. É um filme autoral, quase autobiográfico, sentimental sem ser piegas e nostálgico como ama Hollywood. É também uma homenagem aos tantos mestres do cinema que o precederam e ergueram uma poderosa indústria de entretenimento, da qual ele próprio vem ajudando a construir. Nessa crônica do sempre traumático amadurecimento, podemos ver com os olhos de Spielberg, ou, na verdade, aquilo que ele permite que vejamos. (Eduardo Nunomura)

2) O meu sangue ferve por você
Um dos maiores fenômenos da música popular brasileira, tendo vendido milhões de discos desde sua estreia no mercado fonográfico (em 1977, com o disco que trazia os hits “Meu sangue ferve por você” e “Se te agarro com outro te mato”), o cantor, compositor, ator e dançarino Sidney Magal tem sua vida contada no documentário “Me chama que eu vou”, de Joana Mariani, que estreou nas salas de cinema brasileiras. O filme se vale de um precioso material de arquivo, da presença constante de Magal em programas de televisão ao acervo pessoal do artista. (Zema Ribeiro)

3) O extremismo bem-vindo da Globo
Se depender da TV Globo, Jair Bolsonaro é o cachorro morto da política brasileira. Sem papas na língua, firulas ou voltas na narrativa, a série documental Extremistas.br, que estreou na Globoplay, mira e acerta em cheio na jugular da direita radical. Durante dois anos, jornalistas da emissora passaram a acompanhar diferentes personagens pró-Bolsonaro, inclusive nos acampamentos que perduravam até dias atrás nas frentes dos quartéis. O resultado é uma radiografia precisa sobre a barafunda sociopolítica em que o Brasil se meteu. (EN)

4) O Paraíso segundo Lucas
O Paraíso, novo álbum do músico, compositor e produtor baiano Lucas Santtana, inaugura o ano musical de 2023 mais como substituto que como sucessor de seu trabalho anterior, o tristonho e pessimista O Céu É Velho Há Muito Tempo. Se aquele veio à luz no primeiro ano do governo neofascista e comentava o que tínhamos virado e o que queríamos para nós em 2019 (em faixas de nomes semi-explicativos como “Brasil Patriota“, “Ninguém Solta a Mão de Ninguém“, “Um Professor Está Falando com Você” e “O Melhor Há de Chegar”), O Paraíso se deixa impregnar pelo otimismo da re-eleição e terceira posse de Luiz Inácio Lula da Silva. (Pedro Alexandre Sanches)

5) O belo "Gabinete de Curiosidades"
Gabinete de Curiosidades, com dramaturgia de Gilberto Schwartsmann e direção de Luciano Alabarse, é uma declaração de amor ao Teatro. É Teatro com T grandão, maiúsculo. A generosidade das palavras acima não é gratuita, mas uma tentativa de retratar como a montagem em curtíssima temporada em São Paulo é uma grata surpresa para quem acompanha as artes cênicas. Humor com inteligência, crítica com sutileza, nostalgia com reverência, melancolia com amor, a dupla de atores gaúchos Arlete Cunha e Zé Adão Barbosa entrega, de forma soberba, uma interpretação que não deixa de representar as suas carreiras, mas também as de tantos artistas. (EN)

6) Verona x Rocha Miranda
O ator Marcos Camelo tem a ginga de um carioca suburbano e a malemolência dos que já se acostumaram a bater com a cara nas portas da vida. Não seria diferente para encarnar um personagem tão emblemático como Romeu, da clássica peça de William Shakespeare. Ele é negro, tem baixa estatura e o mundo das aparências o afasta de qualquer ousadia de tentar o papel do amante de Julieta. Mas o traiçoeiro destino o empurrou para a trágica história do escritor inglês algumas vezes, e isso já justificaria ouvir sua versão desses episódios. Eis o mote de Eu, Romeu, peça em cartaz em curtíssima temporada no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, espaço histórico do teatro brasileiro aberto nos anos 1950, em São Paulo. (EN)
O 1º CONFLITO

A Associação dos Servidores da Fundação Casa de Rui Barbosa enviou uma carta à ministra da Cultura, Margareth Menezes, manifestando seu desagrado pela forma “insensível” e pouco democrática como foi conduzida a nomeação do novo presidente da instituição. A ministra nomeou Alexandre Santini, secretário de Cultura de Niterói (RJ), como presidente da FCRB, cumprindo uma cota política – Santini é do PC do B, partido aliado do PT, e foi indicado pela deputada Jandira Feghali, das mais atuantes na área de cultura e uma das autoras da Lei Aldir Blanc. Os servidores preferiam a escritora e linguista Conceição Evaristo e o poeta e sociólogo José Almino de Alencar.
Na carta, a associação declara “surpresa e desagrado” pela forma como foi indicado o novo presidente, que repete procedimento do governo anterior. “Desde o processo de transição de governo o Ministério está informado não só da demanda da instituição de ser ouvida como dos mecanismos que criamos internamente para fazer indicações, a serem submetidas à avaliação da senhora” afirma o documento, assinado pelo presidente da associação, Leandro de Abreu Souza Jaccoud. (JM)
MEMÓRIA

Morreu em São Paulo, aos 82 anos, o poeta, tradutor e ensaísta Claudio Willer, responsável pela primeira tradução brasileira do poema referencial da poesia beat O Uivo, de Allen Ginsberg. Willer teve câncer. Especialista na literatura beatnik, autor de versos recheado de visões surrealistas, ao hermetismo, misticismo, gnose, e também muito atento aos artistas considerados "malditos", aos simbolistas franceses e outros proscritos, Claudio Willer foi referência importante da poesia paulista contemporânea (ao lado de Roberto Piva, de quem foi grande amigo). Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, também militou na organização dos direitos dos literatos, seja na Academia Paulista de Letras ou nas diversas instituições que integrou, entre elas a Secretaria Municipal de Cultura. (JM)
Pelo pleno exercício da cidadania e da invenção
Atenciosamente,
Eduardo Nunomura
nunomura@gmail.com
Jotabê Medeiros
jotabemed@gmail.com
Pedro Alexandre Sanches
pedroalexandresanches@gmail.com

